segunda-feira, 20 de abril de 2009

MITOS E FICÇÕES

Maior do mundo? Pelo menos o Maracanã ajuda!

Engraçado falar do próprio passado sem remorsos. Retomando um pouco um tema de um dos textos mais polêmicos neste espaço (entitulado "Quem Quer Ser Livre?"), penso naquelas histórias absurdas que inventamos para nosso próprio deleite, como se filosofássemos para buscar explicações sobre os diversos acontecimentos diante de nossa presença.

Ontem, por exemplo, numa das minhas saídas do décimo andar para tragar um cigarro meio à madrugada fria, refleti mais uma vez além das grades do condomínio, desta vez sobre os morcegos ocupando noturnamente as diversas árvores que montam uma espécie de telhado natural da minha rua. Reparei bem na "onomatopéia proferida" por eles: o som é um pouco parecido com a comunicação dos ratos. Provavelmente, isso me dá a explicação do porque de algumas pessoas mais antigas ainda insistirem na idéia de que ratos criam asas e viram morcegos depois de algum tempo - por isso há essa importância tão grande de matá-los.

A religião é outro mito. As igrejas funcionam, hoje, como uma espécie de agência da Caixa Econômica Federal para mutuários e latifundiários dos espaços celestes, na medida em que muitos desses mutuários pagam as prestações de forma semanal. A diferença para os bancos é o lanche: se no ato de assinatura de contrato a agência da CEF te dá um cafezinho (e não é necessariamente uma regra), a igreja está sempre disposta a te oferecer uma hóstia (o corpo de Cristo) caso você não cometa nenhum pecado, ou tenha se confessado fervorosamente ao padre poucas horas antes da santa missa... Aliás, o que a mitologia explica sobre o fato de termos a obrigação de escrever as palavras Deus, Missa e Igreja com iniciais maiúsculas? Talvez seja a regra de imponência e poder imposto pela temeridade estabelecidos desde que o catolicismo foi abraçado e absorvido pelo império romano na Idade Média.

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA CIDADE DE DEUS
Por um acaso, ontem mesmo reassisti o filme Cidade de Deus, reprisando pela enésima vez no Domingo Maior da Globo, e acabei por relembrar o testemunho que recebi de um morador do bairro. Segundo o próprio, o termo "baseado em fatos reais" sugerido pelo filme reflete bem a mentira deslavada do roteiro de Bráulio Mantovani sobre alguns aspectos importantes do filme. Reparando bem depois de ver o filme pela quarta vez, comecei a perceber o show da boa continuidade dirigida por Fernando Meirelles e Katia Lund, apesar de saber que há conflitos com a "história real", ou melhor, a contada por testemunhas oculares e moradores do bairro - ou, como Paulo Lins preferiu denominar em seu livro, da "neofavela" Cidade de Deus:

- Só para se ter uma idéia, o roteiro de Mantovani é bem mais simples do que parece no filme. Por exemplo, na cena em que Othon mata Mané Galinha, o roteiro apenas incita que Mané Galinha fechasse os olhos e deixasse sua arma cair antes que menor disparasse a arma contra sua barriga (para quem não lembra, Othon era aquele menino que entrou na boca do Cenoura para vingar a morte do pai - no filme, um guarda de cabine da Agência do Banco do Brasil do Tanque que foi morto por Mané Galinha num assalto do bando);

- Na realidade, a história entre Othon e Mané Galinha nunca aconteceu segundo alguns moradores. Primeiro: Sandro Cenoura e Mané Galinha eram contra o recrutamento de crianças na guerra do tráfico que envolvia a central dos Apês e o Karatê (Zé Pequeno, pelo contrário, foi pioneiro nessa tática de guerra já na década de 70). Segundo, porque Mané Galinha morreu como "sócio-proprietário" da boca-de-fumo do Karatê, bem após a prisão de Sandro Cenoura.

- Zé Pequeno não morreu nas mãos dos chamados "Moleques da Caixa Baixa" como é mostrado no filme. Depois de seu bando e a contabilidade da boca-de-fumo terem se enfraquecido com as constantes guerras, o traficante começou a rejeitar a idéia do "arrego", ou seja, pagamento de propina à polícia para garantir que essa não atacasse o reduto. Zé Pequeno morreu em confronto com a polícia e fuga da mesma, segundo alguns moradores, de forma realmente cinematografica: continuava a correr por entre os prédios dos apês mesmo depois de já ter tomado seis ou sete tiros. Morreu após se esconder dentro da própria boca-de-fumo, e seu corpo foi encontrado estirado no sofá.

- Não se sabe ao certo como Mané Galinha recebeu o primeiro tiro na barriga, mas a cena do filme em que o próprio se mantem estático velando pelo corpo de uma criança retrata bem o período em que, segundo moradores, o bandido começou a apresentar problemas emocionais. Mané Galinha teria acidentalmente atingido uma menina na favela meio a um tiroteio, e esse fato seria o grande motivador.

- Mané Galinha, depois de praticamente assumir a boca-de-fumo e a guerra contra Zé Pequeno e após a prisão de Cenoura, e como parte do script credor incitado em todas as bocas-de-fumo e em vários outros ramos do comércio ilegal, teria assassinado um devedor. Um senhor de idade, parente do assassinado, apareceu no QG do bando de Mané Galinha como recruta - por sinal, este viria mais tarde a ser o bandido reconhecido na comunidade como Velho. Segundo moradores, Velho havia se juntado ao bando do próprio Mané Galinha para vingar a morte do seu enteado. Premeditada e planejadamente, este bandido viria a saber inclusive, através de uma consulta a médicos no Hospital Cardoso Fontes, que se Mané Galinha recebesse outro tiro na barriga provavelmente não sobreviveria. E foi o que aconteceu: depois de relembrar do assassinado numa conversa com Mané Galinha, Velho apresentou o mesmo como seu enteado e disparou sua arma contra a barriga de Mané antes de fugir dali. Mané Galinha, desta vez, chegou a ser socorrido, mas morreu a caminho desse mesmo hospital (o Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, só viria a ser inaugurado cerca de vinte anos depois).

O fato de eu estar discutindo os fatos principais de um filme "baseado em fatos reais" retrata a minha vontade de explicitar a existência desses mitos e ficções, e alertar sobre o fato de como as pessoas ficam inertes e entregues ao anúncio desses por quem quer que seja ou por qualquer veículo oficioso que circule a informação. Ainda hoje tem gente que acredita em mula-sem-cabeça, no monstro do lago, naquele caso de ratos virarem morcegos, no fato de Wilson Simonal ter sido dedo-duro da ditadura militar, na cenourinha do Mário Gomes, no estupro cometido pelo casal Shimada a um menino de cinco anos de idade na Escola de Base de São Paulo, no título doutorado de Roberto Marinho (que nem curso superior tinha), na torcida do Flamengo como maior do mundo (aliás, não tenho outra explicação senão a afirmação de que o Maracanã, com toda capacidade que tinha de abrigar quase cento e vinte mil pessoas, tenha ajudado a afirmar a existência de uma aglomeração maior do que acontece na Europa durante os jogos internacionais - porém, não há provas quantitativas ou tampouco estatísticas existentes sobre todas as pessoas do mundo que não sejam passíveis de controvérsia), na congestão causada pela mistura de manga com leite ou nas fúrias e castigos de Deus contra nós, por exemplo. Mitos e ficções criados para garantir a ordem são seguidos ao pé-da-letra como forma de protesto e pegadinha popular contra a ordem natural das coisas e crenças.

Até quando continuaremos utilizando hipóteses de forças ocultas como base para as nossas ações em vida?

5 comentários:

marcos efraim disse...

vc saberia onde eu poderia achar as fotos Originais de Wilson Rodrigues(bucape)
da Epoca

se vc sabe me passa pr email o Site onde vc encontrou

marcosefraim15@hotmail.com

Anônimo disse...

vai caçar o que fazer!
cara chato... é revoltado com a vida e quer criticar tudo?
otario

Danilo Zanon disse...

Primeiro que o filme é "baseado" em fatos reais... Se você não sabe, ou tem algum problema de interpretação, ser baseado não é a mesma coisa que ser fidedigno. Não existe no cinema, nem brasileiro, nem internacional, um filme que conte a história como aconteceu, mesmo porque a história já existe e não precisa ser copiada e colada para as telas. Essa forma lúdica de contar as histórias serve apenas para prender a atenção do público.
E outra, aposto que você é vascaíno ou tricolor. Pois saiba que hoje, 2013, já foi comprovada que a torcida do Flamengo é a maior do Brasil e, contando torcedores verdadeiros e não aqueles triviais, é a maior do mundo sim... E só um comparativo, a torcida do Flamengo é cerca de 18x o tamanho da papulação do Uruguai. Agora senta e chora pois seu timeco nunca será!
ahahahahahahahahahahahaha

Anônimo disse...

Ei Danilo,a minha rola é maior que a torcida do time da imprensa carioca, o teu tal de flamengo.E se ofilme é "baseado"o autor fumou metade do script original e ficou só essa porcaria que é esse filme!

Anônimo disse...

E o Wilson Simonal era sim um traírão.....cagava no pau sempre....